O Sindcine, sindicato de técnicos do audiovisual (SP, RS, MT, MS, GO, TO e DF), denuncia falhas de segurança nos sets de filmagem brasileiros e exige mudanças nas práticas de produção audiovisual
20/07/2026 O audiovisual brasileiro está de luto. Mas o luto, desta vez, não será relegado a um episódio isolado, acidente imprevisível ou fatalidade inevitável. A morte recente de um profissional da equipe de elétrica, durante a preparação de um set, escancara de novo o que a categoria conhece há anos e finge não ver: há sets sendo montados e operados em condições incompatíveis com a preservação da vida.
No dia 14 de junho, Luiz Fernando Martins, técnico do audiovisual com décadas de experiência, subiu a uma laje, a doze metros de altura, para preparar um set. Conforme informações recebidas por este sindicato, a serem confirmadas pela competente apuração policial, não havia ancoragem. Não havia linha de vida. Não havia qualquer solução técnica que o mantivesse preso à estrutura. Ele caiu e sofreu ferimentos gravíssimos, sem ambulância, sem equipe médica, sem socorro à altura do risco a que havia sido exposto. Não resistiu.
Isso é o resultado previsível de um modo de produzir da esmagadora maioria da Indústria do Audiovisual que comprime orçamentos, reduz equipes, encurta a pré-produção, acelera a filmagem, improvisa soluções técnicas, dispensa planejamento e trata segurança como custo secundário — quando ela é a condição básica de qualquer produção.
Trabalho em altura não se resolve entregando um EPI. Exige análise prévia de risco, permissão de trabalho quando cabível, ancoragem adequada, linha de vida ou solução tecnicamente equivalente, EPIs e EPCs compatíveis, treinamento, supervisão e — obrigatoriamente — plano de resgate. É preciso garantir, antes, que a tarefa seja tecnicamente possível, segura e supervisionada. Nada disso existia naquela laje.
E não basta acionar socorro depois que a tragédia acontece. Set não é espaço informal: é ambiente de trabalho complexo, com eletricidade, estruturas, altura, maquinário, veículos, cargas, cabos, efeitos, deslocamentos, pressão de tempo e dezenas ou centenas de pessoas circulando ao mesmo tempo. Onde há risco relevante e não há estrutura médica, brigadista, ambulância ou plano real de emergência, todos os profissionais estão expostos a uma vulnerabilidade que nenhuma entrega justifica.
A categoria já enterrou os seus. O caso de Cacá, aqui em São Paulo, segue como memória viva de que a pressa, o improviso e a economia irresponsável matam. E há as mortes que ninguém quer chamar de mortes de trabalho: as de quem adoeceu sob cobrança, sob pressão e sob sobrecarga, em ambientes onde faltava gente e sobrava exigência. Além delas, há o que nunca chega à imprensa — quedas, choques, exaustão, jornadas incompatíveis, deslocamentos perigosos após dias extenuantes, gente trabalhando no limite físico e emocional.
É preciso dizer com todas as letras: a pejotização não é escudo. Não afasta a responsabilidade de ninguém sobre o ambiente de trabalho. Seja qual for o formato do contrato, quem organiza, financia, coordena, dirige, contrata e lucra com a produção tem de garantir condições seguras a todos que atuam no set. Segurança não depende do rótulo do contrato — decorre do risco criado pela própria atividade.
E o problema começa muito antes da diária. Começa no orçamento sem rubrica de segurança. Começa na pré-produção feita às pressas. Começa no tech scout sem profissional de segurança do trabalho. Começa na locação escolhida sem avaliação técnica. Começa na equipe reduzida, obrigada a entregar o impossível. Começa na decisão de filmar sem tempo, sem estrutura, sem plano e sem gente suficiente.
Por isso este manifesto não pede favor: exige mudança imediata de cultura e de prática no audiovisual brasileiro.
As plataformas, canais, produtoras, agências, anunciantes, financiadores e seguradoras precisam assumir a sua parte. Não basta cobrar estética, prazo e resultado comercial: é preciso exigir prova de cumprimento das normas de saúde e segurança e da convenção coletiva de trabalho — documentos, responsáveis técnicos, análise de risco, plano de emergência e fiscalização efetiva. Quem contrata a produção contrata também o dever de que ela seja segura e regular.
O audiovisual brasileiro não pode seguir funcionando como se a vida dos técnicos fosse variável de ajuste de orçamento. O brilho da tela não pode continuar sendo construído sobre o medo, a exaustão, a precariedade e o risco.
Nossa indignação é também um chamado à responsabilidade, à organização coletiva, à fiscalização e à mudança imediata.
Que nenhuma morte seja tratada como custo de produção. Que nenhum acidente seja abafado. Que nenhum trabalhador precise escolher entre obedecer a uma ordem insegura e perder o trabalho. Que nenhum set comece sem planejamento, sem segurança e sem respeito.
Segurança no set é obrigação, é condição de trabalho, é respeito — é vida.
SINDCINE — Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do
Audiovisual dos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul,
Goiás, Tocantins e Distrito Federal
www.sindcine.com.br
· @sindcine
Os trabalhadores do audiovisual estão sendo pressionados a filmar sem tempo, sem estrutura, sem plano e sem equipe suficiente. O resultado disso foi mais uma morte há cerca de um mês, em um acidente que poderia ter sido evitado, caso as normas de segurança houvessem sido seguidas. Vamos apoiar este manifesto e leva-lo às entidades patronais, governo, agências de publicidade e anunciantes. O audiovisual brasileiro não pode continuar sendo feito sacrificando a vida e saúde de seus profissionais.
Obrigado. Sua assinatura foi registrada.